Vivemos um momento ímpar na sociedade brasileira. Um momento de superexposição de opiniões, onde nossas posições ficam em evidência e cada vez mais o ambiente democrático se consolida. É o novo paradigma da liberdade de expressão. Hoje temos liberdade demais se comparado a outros tempos. É muitas vezes nestes ambientes que nos propomos mais a julgar os posicionamentos alheios do que construir um diálogo sinérgico com o posicionamento diferente ao nosso. Já é padrão, e é um tipo de modelo mental.

Assim, caminhamos cada vez mais inibindo a nossa potencialidade de se conectar com o outro, de avaliar as opiniões sem se prender ao automatismo da concordância ou discordância que nos assombra e aumenta nossa ansiedade e incapacidade para a construção coletiva. No cenário atual essa questão navega, principalmente, pelos posicionamentos políticos e seus reflexos ideológicos. Muitas vezes nos vemos representando e sendo representados por opiniões que são oriundas do grupo ou tema que nos identificamos. Seja ele: raça, gênero, opção sexual, senso estético, ética e comportamento moral.  São essas opiniões, manifestadas de forma extrema e intolerante, que acabam nos contaminando.

O momento da divergência política não só nos prende em uma insatisfação constante, mas também nos leva a julgar toda ideia ou proposição que surja no lado oposto. Dessa forma, a sociedade se divide em LADO A e LADO B, que se desdobram em outras esferas sociais. A dissensão política acaba sendo a origem para desconsiderar qualquer proposição ou projeto do lado oposto. Perceba que a palavra "proposição" vem do verbo propor, ou seja, apresentar uma solução, vislumbrar.

Aonde esse tipo de comportamento pode nos levar?

Será que todos nós que vivemos em comunidade não temos opiniões e ideias construtivas que merecem ser avaliadas, julgadas e complementadas? Temos muitos insights (ideias) e percepções para melhorar a vida de nossa comunidade, nosso bairro e nossa cidade. Porém, já perceberam que quando verbalizamos com alguém os nossos insights, muitas vezes eles passam por um crivo convergente de discordância ou concordância? Não raro, nosso impulso criativo e empolgação são julgados por terceiros por parecer momentos heurísticos (vem da palavra Eureca, descoberta) autossuficientes, e isso prejudica muito a interação entre as pessoas. Nossa cultura criou a ideia do gênio criativo individual, o ser brilhante, lúcido, acima dos demais. E hoje isso é apenas um comportamento que começa a se transformar.

O fato é que muitas soluções que temos e criamos são dispensadas no lixo criativo e não se tornam projetos. A realidade é que se deixarmos que somente o Estado construa soluções para o desenvolvimento de espaços sociais podemos não ter uma predominância de soluções de ganhos mútuos, mas apenas de ganhos parciais, que atendam a um determinado ator daquele sistema avaliado.

É aí que surge uma nova oportunidade. Todo projeto de cidade, território, empreendimento ou qualquer nova forma de transformação de espaços sociais que envolve atividades e um sistema socioeconômico deve ser considerada como um "Projeto". Projeto em inglês é "Design". Essa terminologia que ainda é muito enxergada apenas como ferramenta estética, está ganhando notoriedade como função metodológica, valor de processo. Quando falamos em processo, estamos pensando na sua forma mais evolutiva e determinada à construção de soluções. Hoje, o "Design Thinking", metodologia multidisciplinar focada nas necessidades humanas com o objetivo de gerar inovação ou soluções criativas de valor para organizações em relação a serviços, produtos e comunicação, está educando a maneira como grupos interagem para construir algo novo.

A determinação em construir, em colaborar, entendendo que a resultante será melhor e de mais valor do que qualquer proposição que tivemos antes, nos leva a modificar a maneira como nos relacionamos com as pessoas. Se objetivamos construir algo que seja de bem comum, precisamos investigar o que é necessário aos diferentes tipos de stakeholders (públicos interessados, participativos) de uma região. Essa investigação - como uma etnografia, uma pesquisa de comportamentos, sentimentos e motivações de alguns arquétipos sociais - deve ser feita com algumas das mais importantes manifestações humanas, a comunicação e o diálogo.

Falar em diálogo pode parecer algo que tenha o objetivo de compartilhar visões e posicionamentos, o que muitas vezes é uma ótima ferramenta de reflexão, mas que ainda não se torna uma ferramenta de construção. Sendo assim, como podemos transformar a interação coletiva e o diálogo em construção? Alinhando o diálogo a uma metodologia de projeto, alinhando o diálogo ao Design.

O Design Thinking e sua proximidade com os negócios já conquistou seu espaço na cultura corporativa mundial. Hoje em dia, é comum a utilização da metodologia em algumas regiões do país, onde o cenário corporativo que almeja ganhar vantagem competitiva utiliza a metodologia de Design Thinking em áreas como Pesquisa e Desenvolvimento, Inovação, Marketing e Recursos Humanos.

O que isso tem a ver com o planejamento de cidades? Tudo. A união da dinâmica do diálogo complementar inserido na metodologia de Design Thinking transforma a maneira como as pessoas colaboram para construir soluções em seus espaços de convivência. Transforma a determinação das pessoas e seleciona os mais engajados. O que deve ser melhorado é a forma como essa interação preocupada em construir é colocada. Ainda fazemos isso com um perfil político de articulação e não um perfil cultural.

Mas como isso pode ser utilizado em nossa cidade? Criando Fóruns Participativos que estejam alinhados com o Planejamento Estratégico da Cidade e definindo as oportunidades de projetos a serem discutidos. Porém, os temas definidos não são temas abertos, mas sim resultantes de uma pesquisa etnográfica profunda que vai do fato percebido até a interpretação e que geram as perguntas gatilhos levadas ao momento de interação construtiva. É uma metodologia extremamente detalhada sobre a condução desse processo que permeia todos os temas de nossa cidade. Já existem algumas iniciativas como o "Niterói que queremos" e alguns fóruns propostos no Rio de Janeiro, mas ainda não são fóruns comprometidos e determinados a inovar com conhecimento profundo de pesquisa e imersão agregando o conceito de diálogo técnico. Assim, não conseguem inserir de maneira extremamente técnica as ferramentas de diálogo em uma iniciativa de construção de projetos estratégicos e um desdobramento em escala exponencial de inovações e desenvolvimento de cidades.

Estamos desafiando você e o poder público a se engajar e conhecer essa iniciativa. Seja você uma organização da esfera privada ou social. É um novo paradigma mundial, que parte de uma capacitação profunda de modelo mental da sociedade. Temos certeza que esse tipo de ação traz uma diminuição considerável de carga na gestão pública e empodera atores da sociedade à viralizarem soluções inovadoras e sustentáveis para a comunidade. Muitas das soluções são sistêmicas e exponenciais, que não geram custo de absorção por parte da população. Entendemos que esse é um drive do futuro. E, para falar de futuro, temos que construir no presente.

Mais informações em www.trupcom.com

 

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