Desde 2012, quando a ex-presidente Dilma Roussef nomeou o professor Paulo Freire como patrono da Educação, o trabalho do professor ganhou uma notoriedade no contexto político e educacional. Agora seu valor educacional está sendo colocado em cheque. A grande confusão e o embate sobre a importância do trabalho do professor está impregnada de ideologia dos dois lados, e digo isso sem querer exibir um posicionamento neutro, ou não expor a minha própria ideologia quando escrevo esse texto. Me considero liberal democrata, sou contra o posicionamento político de Freire, pois não acho que o que ele defendia politicamente, seja o melhor projeto de desenvolvimento (isso até o Freire chegou a dizer quando separou o Socialismo Autoritário, colocado em prática com resultados ínfimos, do Capitalismo Democrático que já tinha sucesso na prática). Porém, dentro da sua atuação, existe uma experiência sólida do exercício do diálogo, adquirida com muita sabedoria pelo professor, mas não tão bem interpretada por alguns dos seus seguidores, como também pelos seus opositores. E o fato mais curioso é que a “neutralidade desejada” por muitos no contexto sóciopolítico nada se parece com o exercício do Diálogo e o fundamento do professor, pois quando o criticamos ou o elogiamos para atores diferentes, as reações são muito semelhantes.

Qual era o grande valor da teoria de Freire? Paulo Freire foi um estudioso de um dos assuntos mais importantes da história da humanidade, o Diálogo. Mas o que é o Diálogo? Alguns normalmente acham que é o simples fato de conversar coloquialmente, alguns dos seguidores do próprio Freire já o praticam em uma roda de conversação livre, aonde pessoas são colocadas em círculo com outras com o mesmo modelo de pensamento, ou pessoas com diferentes visões de mundo para refletir sobre as questões capiciosas, e dali encontrarem soluções, ou definirem objetivos. O Diálogo é demandado por todo ambiente organizacional (familiar, político ou mercadológico), porém, o Diálogo como valor científico, e David Bohm (físico estudioso sobre ciência, arte e criatividade) já dizia, é pura e simplesmente uma técnica de suspensão de pressupostos e do automatismo concordo/discordo com a intenção de gerar uma linha de investigação coletiva da pauta em questão. É uma ciência, que sua força e implementação sobrepõe qualquer ideologia ou pressupostos.

Paulo Freire, assim como David Bohm, estudou Martin Buber, um “Socialista Utópico” (conceito combatido pelo Marxismo que denominava apenas Socialismo Marxista como Socialismo Científico), que sedimentou a ideia de que só nos enxergamos (EU) como indivíduos pertencentes a esse mundo quando nos relacionamos com outros (TU). Essa mútua observação (EU-TU) é facilitada pelo Diálogo proposto por Buber, um diálogo investigativo.

Em sua principal obra (A pedagogia do oprimido), Freire aborda como a conexão entre diferentes atores, com diferenças socioeconômicas e culturais podem gerar conhecimento, aprendizado e humanização mútua, como também a restauração das relações humanizadas. É interessante considerar que ele não defendia a inversão de poder. Sim, isso é uma verdade inquestionável. O grande ponto frágil da interpretação das pessoas e da aplicabilidade histórica do fundamento de Freire, e principalmente dos que interpretam sua obra em contexto político, é distorcer a relação de Díalogo de Buber (EU-TU), como um jogo de poder.

Freire foi se debruçar sobre a filosofia do diálogo para explorar pela educação uma possível liberdade dos oprimidos, através da alfabetização de comunidades pesqueiras e comunidades fragilizadas. O fato é que um estudo fundamentado na conexão (EU-TU) com o compromisso de gerar ganhos mútuos, não poderia virar uma interpretação de inversão de poder. Ou seja, explicando de maneira banal, se eu gosto de azul e outro gosta de vermelho, nunca poderemos dizer que só faremos, ou só desenvolveremos projetos e ideias “bicolores”, se o vermelho for prioridade, ou estiver em primeiro plano. Isso de qualquer forma, por questão filosófica e muito provavelmente por evidência científica, compromete a relação (EU-TU) e a transforma em “EU-ISSO”, relação amplamente criticada por Buber. Ou seja, nunca poderemos aplicar o diálogo em um ambiente onde as premissas são a valorização pré concebida de um agente em questão.

Foi aí que não conseguiram separar o joio do trigo. Freire acabou tendo uma atuação híbrida na sua prática. Ao mesmo tempo que canalizou uma ferramenta de um estudo que desenvolveu técnicas de conexão (EU-TU), deixando homens livres para construírem nas diferenças, deixou transbordar a sua ideologia, oportunamente aproveitada pelos agentes políticos. Esse aproveitamento na prática se pareceu muito mais com o Socialismo Científico de Marx, aquele que foi colocado em prática na Revolução de 1917, na China de Mao, na Coréia do Norte, na Venezuela etc., e falhou, do que com o Socialismo Utópico de Buber, aquele que não acreditava em uma atuação autoritária, que não visava gerar ambiente político e era considerado pelo Marxismo como “Socialistas burgueses”.

Quais são os efeitos dessa interpretação para a educação e o desenvolvimento? Em uma análise de estrutura educacional, o Diálogo de Buber (EU-TU) teria imensa oportunidade de aplicação e resultados cientificamente fiéis a teoria pedagógica, porém a falha foi deixar que o aspecto ideológico corrompesse o exercício de uma atividade espontânea, de uma livre produção de ideias resultantes de uma investigação coletiva fiel, e da manifestação de amadurecimento do desenvolvimento do cidadão.

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